quarta-feira, junho 22, 2005

O EMBUSTE DO PRESIDENTE

O Presidente, enquanto principal promotor da criação da COTEC Portugal, sabe do que fala. É precisamente este pequeno detalhe que torna as suas declarações perigosas e inaceitáveis. Sampaio sabe que o principal entrave à inovação em Portugal não é a falta de empenho da banca no apoio a empresas que queiram inovar. Quase todos os Bancos, têm os seus fundos de capital de risco. Podem não ser muitos, chamar-lhes "de risco" pode ser um exagero, mas vão existindo e dando conta do recado.
Qualquer pessoa minimamente letrada nas matérias da inovação sabe, e o Presidente também, que os grandes entraves à inovação em Portugal são outros, bem mais incómodos, de resolução bem mais complicada. E aos quais o Presidente, se adoptasse uma postura pedagógica e não absolutamente demagógica como faz, se poderia, com mérito, dedicar.
Estes problemas são de três ordens: cultural, económica, e de organização do Estado.
1. Existe, à cabeça, um enorme constrangimento cultural nas sociedades europeias (especialmente no sul da Europa) no que toca à tomada de risco e ao empreendedorismo. Quem entre nós arrisca abraçar um projecto pessoal, inovador e potencialmente criador de riqueza, é olhado como alguém esquisito, "com a mania que quer ser rico", e os prognósticos (encapotando desejos) de insucesso multiplicam-se. Este traço cultural é um pesado fardo. Deve ser combatido através de campanhas organizadas onde se valorize a iniciativa, onde o insucesso seja tolerado, e as 2ªs oportunidades sejam opção. Devem ser sobretudo valorizados os exemplos, poucos, que vão existindo, sejam estes de sucesso ou insucesso, mas sobretudo valorizando o exemplo de alguém que arriscou.
2. Do ponto de vista financeiro, sabe muito bem o presidente que não é a banca, nem o Capital de Risco, o principal entrave. O grande problema está a montante, e não pode ser solucionado por modelos deste tipo. É necessário criar redes de Business Angels e Capital de Semente (seed and pre-seed capital), que apoiem de forma efectiva os primeiros passos do lançamento de novas empresas (essas sim, mais do que as grandes empresas) portadoras de inovação. É a este nível que existem as grandes falhas. É o chamado vale da morte (a zona onde morre a maioria dos projectos inovadores por falta de agentes tomadores de risco):


3. Do ponto de vista da organização do Estado, e da sua afirmação como um agente confiável e previsível, no sentido de criar a confiança necessária ao investimento, estamos conversados. Em Portugal, a carga fiscal é propria para bons samaritanos, a burocracia e instabilidade tanto dos pacotes legislativos como das instituições (veja-se o "casa" "descasa" ICEP-IAPMEI) transformam os trabalhos de criação e lançamento de empresas, em verdadeiros trabalhos de Hércules, contribuindo para o afastamento de quem sofre já das dificuldades acima enunciadas.

Existe ainda um problema de formação para o empreendedorismo, e alteração das perspectivas de qual o mercado natural para um projecto empresarial inovador nascido em Portugal, mas não sendo dificuldades determinantes, falamos delas noutro dia.

O Presidente, conhece esta realidade. Poderia portanto dedicar-se a três coisas muito simples:

1. Ser um verdadeiro Embaixador do Empreendedorismo. Inverter tendências. Promover exemplos de sucesso. Combater a tendencia cultural de aversão ao risco e ao desconforto. Exaltar a iniciativa. Criar condições para que o insucesso não seja culturalmente tão castigado.

2. Promover, entre um conjunto de empresários, detentores de grandes fortunas, investidores informais, a sindicância de fundos de capital de semente, e a criação de redes de Business Angels. Aí sim, a influência da mais alta magistratura da república poderia ser determinante na inversão do panorama.

3. Combater de forma determinada, a burocracia, os entraves ao desenvolvimento e criação de negócios inovadores. Exigir o essencial investimento em I&D, defendendo o necessário conforto fiscal para que este possa existir. Promover legislação laboral mais flexível e competitiva. Combater o "braindrain" a que o país assiste, impávido e sereno, há décadas.

Três conjuntos de medidas, tão necessárias quanto eficazes, a que o Presidente no execicício das suas competências se poderia, pedagógicamente, dedicar.

É este o embuste presidencial. Não é isto que se pede a um Presidente. Conhecedor das causas e das boas soluções opta, frívolamente, por um discurso profundamente demagógico e populista. Reduz a discussão ao non-sense típico com que se abordam as questões fundamentais em Portugal. Desgasta o tema, cansa a opinião pública, e perde a oportunidade de mobilizar o país numa batalha que é fundamental para o futuro das próximas gerações.

É como o outro. É pena.

-MB-

PS: Para quem possa enventualmente achar que este post é de mais um cego defensor da banca e do capital de risco, desengane-se. Esses senhores são nesta matéria "perigosos cadastrados". Não pode é o Presidente reduzir a questão aos termos que utilizou. Não tem 16 anos, e não é desconhecedor do tema. Aqui o nosso amigo GLX, que também "dá uns toques" nestes temas, é que podia "apostar" relativamente à postura da banca e do capital de risco.

1 Comments:

Blogger E depois do adeus... said...

Meu caro MB,
tens tu toda a razão, quer na argumentação, quer no desafio. Gostei do boneco do "vale da morte", template quase sempre usado para falar destas matérias. Aceito o desafio, mas não se me peça é "que chegue ao fim em pouco tempo". De qualquer modo,técnicamente falarei sempre mais das "entidades" do capital de risco (API's e afins)do que da banca. Politicamente entendo que o Presidente perdeu uma boa oportunidade para estar calado.Alguém em sabe dizer se a intervenção foi feita a seguir ao almoço?

8:57 da manhã  

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